Nicole Alvarenga Marcello traduz Alda Merini



Alda Merini (Itália,1931-2009) foi uma das mais importantes poetas e escritoras italianas da segunda metade do século XX.


Devido a problemas psiquiátricos e à fragilidade mental, Alda Merini passou quase 20 anos internada no Ospedale Psichiatrico Provinciale Paolo Pini, em Milão. Embora possuísse algumas «regalias » – como receber visitas importantes, como as de Pier Paolo Pasolini e de outros poetas com os quais já convivia desde a adolescência – a experiência manicomial perpassa a poética de Alda Merini de modo muito obscuro: labirinto, ditadura, inferno, tribunal da Inquisição, sepultura e terra fora da humanidade são os termos com os quais a poeta nomeia o lugar onde ficou internada. Datam desse período três de suas principais obras : Destinati a morire (Lalli, 1980), La Terra Santa (Scheiwiller, 1984) e L'altra verità. Diario di una diversa (Scheiwiller, 1986), as quais se junta, posteriormente, a obra La clinica dell´abbandono (Einaudi, 2004). Aos que diziam que ela era a « poeta da loucura », Alda Merini os corrigia, declarando ser, na verdade, a «poeta da vida ».


Se o delírio é apontado como um pathos na poesia de Alda Merini, o amor passional, a fé e a interlocução com Deus e a metapoética também são temas recorrentes na obra da poeta. Seus últimos livros apresentam um retorno a um tom mais autobiográfico, agora já abarcando a prosa, os relatos, as cartas e os aforismas.


Os poemas aqui selecionados estão presentes, respectivamente, nas obras La vita facile (2001), La volpe e il sipario (1997) e Il Re delle vacanze (2003). As traduções são da professora, pesquisadora e tradutora Nicole Alvarenga Marcello - a quem agradecemos por ter aceito o nosso convite e gentilmente realizado estas traduções.


Mais sobre a vida e a poesia de Alda Merini no site dedicado à poeta : http://www.aldamerini.it.




A tutti i giovani raccomando


A tutti i giovani raccomando:

aprite i libri con religione,

non guardateli superficialmente,

perché in essi è racchiuso

il coraggio dei nostri padri.

E richiudeteli con dignità

quando dovete occuparvi di altre cose.

Ma soprattutto amate i poeti.

Essi hanno vangato per voi la terra

per tanti anni, non per costruirvi tombe,

o simulacri, ma altari.

Pensate che potete camminare su di noi

come su dei grandi tappeti

e volare oltre questa triste realtà

quotidiana.


(In: La vita facile. Bompiani, 2001)



A TODOS OS JOVENS RECOMENDO


A todos os jovens recomendo:

que abram os livros com devoção,

e não lhes corram os olhos superficialmente,

porque neles está guardada

a coragem de nossos pais.

E que os fechem com dignidade

quando tiverem de se ocupar com outras coisas.

Mas, sobretudo, amem os poetas.

Eles escavaram por vocês a terra

por tantos anos, não para erigir tumbas,

ou estátuas, mas altares.

Pensem que vocês podem caminhar sobre nós

como fazem com grandes tapetes

e voarem para além desta triste realidade

cotidiana.



Ascolta il passo breve delle cose


Ascolta il passo breve delle cose

-assai più breve delle tue finestre-

quel respiro che esce dal tuo sguardo

chiama un nome immediato: la tua donna.

È fatta di ombre e ciclamini,

ti chiede il tuo mistero

e tu non lo sai dare.

Con le mani

sfiori profili di una lunga serie di segni

che si chiamano rime.

Sotto, credi,

c’è presenza vera di foglie;

un incredibile cammino

che diventa una meta di coraggio.


(In: la volpe e il sipario. 1997)



ESCUTA O PASSO CURTO DAS COISAS


Escuta o passo curto das coisas

- muito mais estreito que tuas janelas -

esse sopro que sai do teu olhar

clama por um nome imediato: a tua mulher.

É feita de sombras e ciclamens,

te pergunta sobre teu mistério

e tu não sabes dá-lo.

Com as mãos

acaricias silhuetas de uma longa série de sinais

que se chamam rimas.

Por baixo, crês,

há presença verdadeira de folhas;

um incrível caminho

que se torna uma meta de coragem.



Io sono una città nera


Io sono una città nera

e una rondine notturna.

Qualche ragazzo mi sorride

e allora divento volpe canterina.

Un mare di pesci

mi nuota sempre intorno,

sono i falsi poeti

che vogliono toccare il genio

con la piuma contorta

di un’insana voracità

ma la curiosità è un grillo schiacciato

che fa finta di essere un’anima.


(In: Il Re delle vacanze – favole, poesie, aforismi. Ed. Acquaviva)



EU SOU UMA CIDADE NEGRA


Eu sou uma cidade negra

e uma andorinha noturna.

Um rapaz qualquer me sorri

e logo me torno raposa cantadeira.

Um mar de peixes

nada sempre ao meu entorno,

são os falsos poetas

que querem alcançar o gênio

com a pena contorcida

de uma insana voracidade

mas a curiosidade é um grilo esmagado

que finge ser uma alma.



Nicole Alvarenga Marcello é professora, tradutora e escritora, radicada em Belo Horizonte. Possui graduação em Piano pela UFRJ e é Mestre em Literatura Brasileira pela UFMG. Desde 2018, coordena e media o coletivo de leitura Toda Prosa (@todaprosa.bh). Em 2020, fundou a Casa Quarup (@casaquarup), sebo e casa de cursos livres com ênfase em Literatura, Arte e Ciências Humanas, em atuação de forma remota. Sob o pseudônimo de Bel Schreiber, manteve de 2013 a 2020 o blog “Vertendo Vida”. Atualmente conduz o projeto Astrológicas, na plataforma Medium, uma publicação seriada de contos inspirados nos signos do zodíaco.



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