Uma carta de Alejandra Pizarnik para Silvina Ocampo



Alejandra Pizarnik (1936-1972) é um dos principais nomes da poesia argentina. Parte de sua obra já circula em tradução no Brasil, graças a publicação de Árvore de Diana (1962) e Os trabalhos e as noites (1965), ambos lançados pela editora Relicário em 2018.


Além de poemas e de diários (dos quais mais de 100 trechos foram censurados pela família, de origem russo-judaica), Pizarnik produziu uma considerável correspondência, sobretudo em função de sua viagem e permanência em Paris a estudo (nunca completado) e a trabalho, como tradutora e periodista, entre 1960 e 1964. Dessa rede epistolar, formaram-se muitos contatos e amizades: Olga Orozco, Sylvia Moloy, Ana Becciú, Enrique Pezzoni, Aldo Pellegrini, Enrique Molina, Julio Cortázar, Octavio Paz, Alberto Manguel, Aurora Bernárdez, Italo Calvino e Simone de Beauvoir.


Apresentamos uma dessas cartas – a carta de nº 5 – retirada da correspondência entre Alejandra Pizarnik e a poeta e escritora argentina Silvina Ocampo (1903-1993). Especula-se que Alejandra e Silvina tiveram um relacionamento lésbico. É muito profundo o nível de afetividade e de cumplicidade estabelecido entre elas nas cartas, nas quais Pizarnik se entrega à figura de Silvina tendo-a como autoridade poética, confidente e objeto de desejo.


Com uma personalidade oscilante, melancólica, depressiva e com pulsões autodestrutivas, marcadas pela sensação de clausura familiar e de não pertencimento, Alejandra Pizarnik se suicidou em 1972, aos 36 anos, em um fim de semana no qual havia conseguido uma permissão para saída do hospital psiquiátrico onde estava internada. Em um quadro-negro que estava em seu quarto, Alejandra Pizarnik escreveu seu último poema:


no quiero ir

nada más

que hasta el fondo


Preocupada com o estado emocional e psicológico de Alejandra, Silvina Ocampo escreveu para ela uma carta, dias antes do suicídio. Essa carta nunca teve resposta.




CARTA 5


Querida Silvina, le ciel est si bleu, si tendre, muy parecido a tu sonrisa. Pero ayer a las 20 horas no fue así pues no sé por qué, sobre el celestegrisrosa del crepúsculo vino una nube enorme, enorme, y también negra, y también erizada, como hecha de la materia de un gato electrizado, quiero decir de la piel de ese gato que por otra parte nunca vi sino dibujado en una historieta.


Me siento muy orgullosa y con un poquito de miedo -a causa de la responsabilidad que implica- escribiendo con tu lapicera. Tengo que acostumbrarme a ella pues exige una impetuosidad y una generosidad y una entrega propias en mí de un instante privilegiado y en vos de tu estado natural de ser y de estar. (Se entiende algo o es cierto que el sol me inmovilizó el pensamiento?). Quiero decir que no será extraño si ella cambia de forma –y sobre todo el sentido- de mis poemas venideros. (Cuando yo tenía 6 años me pasaba la vida escribiéndoles a los Reyes Magos –no sólo en su día sino en cualquier otro- pidiéndoles una lapicera que supiese sumar, restar y dividir sola; ella dirigiría mi mano derecha mientras la izquierda, debajo del pupitre, da vuelta las páginas del libro de cuentos que leo mientras la lapicera se las arregla mágicamente para hacer de mí el genio de las matemáticas. Esto es idiota pero no hago más que recordarlo desde el lunes).


Encontré un librito de Old Montaigne que por momentos es muy delicioso: “Sur le plus beau trône du monde on n’est jamais assis que sur son cul”.


¿Te deje muy triste el otro día? Espero que no. Confío en que no. Aun así, y aunque maldita la gracia que me hace tender mi tristeza sobre la mesa como un mapa, aun así es una Gran Prueba de Amistad de mi parte esto de no sonreír todo el tiempo y de no decir chistes todo el tiempo, que es lo que hago con 99 de cada 100 personas que conozco. Quiero decir que revelar la tristeza es algo así como la máxima confesión (al menos, en mi caso). Pero me horroriza pensar que pude comunicártela. Ojalá que el peregrino la haya disipado si es que no la dejé al irme.


Minúsculo dibujito de una niña arrastrada por –o arrastrando- un cometa-flor


Estuve pensando mucho en lo que dijiste sobre la continuidad del poema, aquello de que un verso llama a otro.


Creo que te va a encantar como a mí la dama que está a la izquierda, en el primer plano, vestida de azul, dueña de una lujosa cola blanca, parecida –si j’ose dire – a la de un caballo. Aunque temerosa de exagerar, me he atrevido a pensar que también sus finas y blancas piernas tienen un no sé qué de equino. (En las noches de invierno ella galopa con sus piececitos vestidos de azul y danza, danza de alegría, de miedo, danza para alegrar su pequeño corazón, su corazón de madera, su corazón de buena suerte).


Minúsculo dibujo de una niña llevando una flor


Por primera vez, después de muchos meses, leí un diario. Al dejarlo he sentido deseos de ir a Uganda. Habría que traer a la Mère Ubu y al Père Ubu como reyes.


Vengo de un paseo de cuatro horas solitarias en bicicleta. Por eso la carta está girando (“elle tourne, elle tourne comme dans les rêves de la reine folle…


J’e t’embrasse


Alejandra


(Alejandra Pizarnik. Nueva Correspondencia. Edición de Ivonne Bordelois y Cristina Piña. Editorial Lumen, 2017)



CARTA 5


Querida Silvina, o céu é tão azul, tão terno, muito parecido com teu sorriso. Porém ontem, por volta das 20 horas, não foi assim pois não sei por que, sobre o celestegrisróseo do crepúsculo veio uma nuvem enorme, enorme, e também negra, e também eriçada, como feita da matéria de um gato eletrificado, quero dizer, da pele desse gato que por outra parte nunca vi senão desenhado em uma historinha.


Me sinto muito orgulhosa e com um pouquinho de medo – por causa da responsabilidade que implica – escrevendo com tua caneta. Tenho de me acostumar a ela pois exige uma impetuosidade e uma generosidade e uma entrega próprias em mim de um instante privilegiado e em você de teu estado natural de ser e de estar. (Se entende algo ou é verdade que o sol me imobilizou o pensamento?). Quero dizer que não será estranho se ela muda de forma – e sobretudo o sentido – dos meus próximos poemas. (Quando eu tinha 6 anos, passava a vida escrevendo para os Três Reis Magos – não apenas em seus dias, mas em qualquer outro – pedindo-lhes uma caneta que soubesse somar, subtrair e dividir sozinha; ela conduziria minha mão direita enquanto a esquerda, debaixo da carteira, vira as páginas do livro de contos que leio enquanto a caneta se ajeita magicamente para fazer de mim o gênio da matemática. Isto é idiota, mas não faço mais que recordá-lo desde segunda-feira).


Encontrei um livrinho do Velho Montaigne que por vezes é bem delicioso: “Mesmo sobre o mais belo trono do mundo, não estamos mais do que sentados sobre nosso traseiro”.¹


Te deixei muito triste outro dia? Espero que não. Confio que não. Mesmo assim, e embora maldita seja a graça que me faz estender minha tristeza sobre a mesa como um mapa, ainda assim é uma Grande Prova de Amizade de minha parte isto de não sorrir o tempo todo e de não contar piadas o tempo todo, que é o que faço com 99 de cada 100 pessoas que conheço. Quero dizer que revelar a tristeza é algo assim como a máxima confissão (ao menos, no meu caso). Porém me horroriza pensar que pude comunicar isso a você. Tomara que o peregrino o tenha dissipado se é que eu não a deixei quando parti.


Minúsculo desenho de uma menina arrastada por – ou arrastando – um cometa-flor


Estive pensando muito no que disse sobre a continuidade do poema, aquilo de que um verso chama o outro.


Creio que vai te encantar como a mim a dama que está à esquerda, em primeiro plano, vestida de azul, dona de uma luxuosa cauda branca, parecida – se me atrevo a dizer – a de um cavalo. Apesar de temerosa em exagerar, me atrevi a pensar que também suas finas e brancas pernas têm um não-sei-o-quê de equino. (Nas noites de inverno, ela galopa com seus pezinhos vestidos de azul e dança, dança de alegria, de medo, dança para alegrar seu pequeno coração, seu coração de madeira, seu coração de boa sorte).


Minúsculo desenho de uma menina carregando uma flor


Pela primeira vez, depois de muitos meses, li um diário. Ao deixa-lo, senti desejos de ir a Uganda. Haveria de trazer Mère Ubu e Père Ubu² como reis.


Venho de um passeio de quatro horas solitárias de bicicleta. Por isso a carta está girando (“ela gira, ela gira como nos sonhos da rainha louca...”)


Te beijo


Alejandra


(Tradução: Jorge Miranda)


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NOTAS

¹ Michel de Montaigne. Ensaios. III, 13. 1588.

² Mère Ubu e Père Ubu: provável referência aos personagens da peça Ubu Rei (1896), escrita pelo poeta, romancista e dramaturgo francês Alfred Jarry (1873-1907).

Na carta, não consta originalmente a informação de local e data.

Por não se tratar de um fac-símile, o acesso aos desenhos feitos na carta é possível apenas por descrição, tal como aqui constam.




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