O que é um país?: obras de Anna Bella Geiger

Anna Bella Geiger (Rio de Janeiro, 1933) é artista plástica, pintora, desenhista, gravadora, escultora e professora. Aluna de Fayga Ostrower na década de 1950, Anna Bella Geiger dispõe de quase seis décadas de produção artística, geralmente dividida em momentos que melhor identifiquem cada parte do seu trabalho.


Duas das quatro grandes fases de Anna Bella Geiger apontados pelo crítico e curador brasileiro Fernando Cocchiarale são a "visceral”, entre 1965-1968, voltada principalmente para o trabalho com a gravura; e a fase a partir de 1973 caracterizada pela inquietação em relação à natureza da obra de arte, a presença do artista na obra e as questões políticas, econômicas e ideológicas dos circuitos de arte.


A primeira fase se concentra em uma investigação cartográfica a partir do uso de mapas. Territórios e fronteiras geográficas passam a ser problematizados, pois se mostram insuficientes para delimitar conceitos como “cultura” e “nação”. Obras como a série Local de ação apresentam um mapa-múndi no qual o Brasil é um grande espaço vazio. Outros mapas produzidos irão deslocar, isolar e rearranjar as fronteiras dos países como forma de evidenciar a diferença entre desenvolvidos e subdesenvolvidos, ou ainda os polos de influência cultural e as áreas de dependência cultural. Para isso, Anna Bella Geiger emprega não só as gravuras, mas as chapas de metal e recortes utilizadas na técnica de produção delas, evidenciando na obra o seu próprio processo de feitura.


A partir da segunda fase, na década de 1970, a produção artística de Anna Bella Geiger engloba outras mídias e técnicas: o xerox, a serigrafia, a fotografia, a fotogravura, a fotografia clichê, a fotomontagem, o vídeo e o Super-8 são algumas das mídias utilizadas pela artista, muitas vezes em caráter experimental. Novamente, questões relativas às noções de identidade e de cultura nacional, além da crítica ao local do artista na sociedade, à constituição do meio de arte no Brasil e sua posição no mundo marcam o trabalho de Anna Bella Geiger nessa fase.


O contexto político e social da ditadura militar não pode ser ignorado nesse momento, já que dele emerge uma forte construção ideológica de um nacionalismo pautado em símbolos: a bandeira nacional, a presença da representação cartográfica do país aludindo ao conceito de pátria e a estereotipização de elementos históricos e culturais na construção de um imaginário nacionalista facilmente assimilável (que vai desde imagens de indígenas até o futebol) são importantes como mecanismos de controle para a ditadura. O que Anna Bella Geiger propõe em seus trabalhos é uma tomada de consciência crítica que problematize os símbolos e os mecanismos ideológicos que construíram esse imaginário quase mítico de brasilidade. Uma identidade nacional culturalmente homogênea esconde múltiplas contradições, e a reapropriação desses elementos, muitas vezes de forma paródica e irônica, é o dispositivo de desmontagem dessa ideologia e de seus aparatos e circuitos, empregado de modo a não simplificar as tensões que emergem desse debate.



Brasil Nativo / Brasil Alienígena. Série de 9 pares de cartões-postais da Bloch Editores e fotografias da artista por Luiz Carlos Velho. 110 x 32 cm. 1966-1977.


Little boys and girls. Série História do Brasil, Fotografia e colagem, 23 x 22 cm. 1975.



O Pão Nosso de Cada Dia. Série de seis cartões postais e saco de pão, 59 x 69 cm. 1978.



Linha imaginária de Tordesilhas. Série Fronteiriços. Encáustica, clichê, folha de prata e cobre em gaveta de metal. 9,5x19,5x59 cm. 1995-2014.



Orbis descriptio nº 11. Série Fronteiriços. Gaveta e arquivo de ferro, encáustica, fios de cobre, molas e pigmento. 1997.


Local da ação n. 001. Água forte e clichê recortado sobre papel. 47x69cm. 1980.


Correntes culturais. Serigrafia, colagem e tinta de máquina de escrever sobre papel.. 37x50cm. 1976.


Rio de Janeiro como centro do mundo cultural. Nanquim e colagem sobre papel translúcido.29,5x20,5cm. 1977.


Variáveis. Serigrafia e bordado à máquina sobre linho, 56 x 63cm, 1976-2010.


Sobre a arte. Acrílica sobre tela. 119,5x80cm. 1976.


A cor na arte. Caderno de artista. 1976.


Créditos

Tadeu Chiarelli. Anna Bella Geiger: outras anotações para o mapeamento da obra. In ARS. vol.5 n.10. São Paulo, 2007. p.80-89. Também disponível em “Anna Bella Geiger: other annotations for the mapping of the work”. BARTELIK, Marek (Ed.). POZA: on the polishness of polish contemporary art. Hartford, Connecticut: Real Art Ways, 2008, p. 50-59.


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