A antropologia da face gloriosa: fotografias de Arthur Omar


Arthur Omar (MG, 1948) é fotógrafo, artista visual, diretor e roteirista. Antropologia da face gloriosa, lançado em 1997, é uma de suas obras, cujos trabalhos fotográficos se estenderam de 1973 a 1996. Nela, Arthur Omar se volta para um registro muito específico dos festejos de carnaval no país: a partir de retratos dos rostos dos foliões, com um enquadramento focal consideravelmente próximo, Arthur Omar busca capturar na fisionomia uma espécie de metonímia da alegria e do prazer próprios dessa festividade.


Inicialmente, é curioso pensar como uma obra de fotografia se proponha a registrar o carnaval brasileiro a partir de fotografias em preto e branco. A ausência de cor, aliada a uma opção pelo contraste, pela granulação e, em algumas delas, pela sobreposição ou pela longa exposição no tratamento dado às imagens poderia se mostrar uma escolha equivocada. No entanto, a subtração do elemento cromático parece aguçar a percepção de outros fatores nas fotografias, uma vez que o colorido das fantasias e adereços não cria uma competição visual com o que cada foto privilegia: os rostos. Cada expressão, olhar, sorriso e careta domina e atrai a atenção do espectador, que encontra em cada um deles a fisionomia do transe, do êxtase - a captura do momento em que o fulgor da face gloriosa se revela.


Por sinal, tal expressão presente no título dialoga com a expressão “corpo glorioso”, pertencente à doutrina católica. Dessa proximidade divina e carnal, cada folião retratado permanece anônimo. Não há indicação de seus nomes, de suas identidades: fantasiados ou maquiados – a mais efêmera das máscaras -, todos são puro páthos, corpos-entidades. Embora desconhecidos, dissolvidos pelo foco e pelos rastro dinâmico da luz e do movimento, há algo familiar nesses rostos: em alguma parte daquela alegria transfigurada, ali também nos reconhecemos.


Arthur Omar opta por uma legenda que tenta descrever, de forma poética, cada fotografia. Destituída de referência factual ou documental (embora cada rosto traga em si uma multiplicidade de histórias), as legendas parecem potencializar a aura que a face gloriosa emana – para a qual não há um nome suficientemente preciso que possa aderir à sua beleza.



OBRAS


Leite Zulu para Harmonia Química Nacional;


Amélia Concêntrica Irradiando a Beleza Universal;


Disparando o Sorriso como Tiro de Advertência;


No Freezer do Instante;


Antropologia da Face Gloriosa;


Com os Nervos Atados no Alto da Cabeça;


Rainha da Noite com Alfinetes de Luz;


A Partir Daqui, Qualquer Retorno Será Fatal;


Passageiro da Alegria Oferecendo ao Movimento uma Nova Lei;


A Aspiração do Relâmpago;


Joias Gnósticas e Lágrimas de Man Ray;


Laboratório onde o Sol vem Acertar os seus Ponteiros;


Mandarim da Ambiguidade entre o Ouro e a Carne;


A Decapitação da Noite é um Ato Parcial.



Arthur Omar. Antropologia da face gloriosa. Cosac & Naify, 1997. 240p: 161 il.

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