Adimaun huni kuin anu hiwenikiaki: um relato do povo Caxinauá

Esta história aconteceu em 1951, quando o etnólogo, tradutor e fotógrafo Harald Schultz (RS, 1909-1966) encontrou com o povo indígena Kaxinawá / autodenominação Huni Kuin (na ocasião, recém contatado), que habita o Acre, o Amazonas e o leste do Peru. No entanto, o ponto de vista desse relato não é do fotógrafo de descendência alemã.

Um dos registros da expedição de Harald Schultz e o povo indígena Umutina, no norte do Mato Grosso. Harald Schultz. Vinte e três índios resistem à civilização. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1953. Disponível em http://www.etnolinguistica.org


É curioso, como uma ressalva, a percepção temporal dos Kaxinawás acerca desse período de permanência e de vivência entre eles e Harald. A julgar pelo título e por outros marcadores cronológicos no relato, dá-se a entender que Harald viveu algum tempo considerável entre eles; contudo, ele permaneceu menos de uma semana na aldeia.



Crédito: Florian Iskubu-Sianai


A tradução é de Eliane Camargo, a partir da transcrição das gravações dos relatos colhidos com indígenas do povo Huni Kuin – Caxinauá. Além de Eliane, as transcrições foram realizadas por Texerino Kirino Capitán, Alberto Roque Toribio, Sabine Reiter e Hulicio Moisés.


ADIMAUN HUNI KUIN ANU HIWENIKIAKI



Adimaun huni kuin anu hiwenikiaki eskanikiaki.

Adimaundan huni keyatapa, hawen bu huxinipa, huni kuinbun uinniki. Yaix Buxkaki, akin. Huni kuinbun hawen kena inanibuki, kaxe kenadan. Hawen nabu habia keskadi debuyamaki kenakindan, Yaix Buxkadan. Hawen yuxin biti haya inikiaki. Hatube hiwea beyus akaibu, Buna waaidan, hatu yuxin bipaunibukiaki. Baka waaibudan, mabu waaibudan, ainbundi ba waaibudan habiaskadi, xapu akaibudan, nanen hatu akaibudan, dasibi hatu yuxin keyu bikin waai. Hatube hiwei itxaipanikiaki, haskaidan. Pe haidan dayai hawen nabu há kayabi keskai hiwenikiaki. Hanuxun huni kuinen mabu betsa-betsapa itxa wanikiaki. Ainbun mabu waaibu, bixun itxa wakindan, hatun txitxandan, mai kentidan, xapudan, idan, duntidan, maxedan, disidan, dasibi tixa wayamakiaki. Hanuxun hunibun madubi tixa wanikiaki. Hatun piadan, kanumdan, bui hawen pia watidan, kakidan, kukidan, kenpaxdan, hisin hawen baka bitidan, pudi itidian, tepe dewedan, tete peidan, paka maitidan, txipadan, tudu tadidan, dasi itxa wanikiaki. Haska wai ma hua kemaxun, hatu badi kaaya itxa watan, una kene ewapa buima bitan, hatu uinmakin yuinikiaki. Huni kuin xenipabu bai hiwenibudan, yawa bainibudan, Nete Bekum... dasibi miyui ipaunibudan. Haska kenenibu yuibaini, niskan txakayakiaki. Hanua huni kuinbu iki: “Nukun hatxa keskaki. Tsuan yusinma ikimenkain nukun nabu banibu, yuibainikikidan. Haskakendan, nukun nabu paxkabainnibu betsa nukuki dasitannun ika huimaki. Eskatiandan dua wanankanwe iwanan, haki dateama ena wanibukiaki”


Haska wanibu hatube hiwei itxapamatan. Hukin, mabu dasibi itxa waima benikiaki, hawen mae anu hukindan. Ha mabu bekin bukindan, maewan betsa hawen kena Saun Paudu anu.



O ALEMÃO QUE VIVEU COM OS CAXINAUÁS



A visita do alemão aos caxinauás foi assim.


Os caxinauás viram um alemão alto, de cabelo ruivo. Chamaram-no de Yaix Buxka, “cabeça de tatu”.

Os caxinauás deram-lhe um nome, um apelido. Ele parecia com um parente caxinauá falecido cujo apelido era Yaix Buxka. Ele tinha uma câmera. Os caxinauás estavam fazendo a festa do Buna waa quando ele chegou e tirou foto.

Também tirou fotos de como pescavam, de como faziam seus artesanatos e de como as mulheres cozinhavam. Ele tirava foto de tudo o que faziam: arrancar macaxeira, tecer rede como desenho, preparar o algodão, pintar o corpo com jenipapo.

Viveu um tempo com eles. Parece que vivia assim, trabalhando muito bem com aquela família caxinauá dele.

Os caxinauás agruparam os vários tipos de objetos que faziam e o alemão levou todo tipo de objetos fabricados e/ou usados pelas mulheres: seus paneiros, suas panelas de barro, algodão, fuso, a mão do moedor, urucu, rede. Os homens também reuniram seus objetos. Reuniram suas flechas e arcos, resina para passar nas flechas, paneiros grande e pequeno, jamaxim do mato, tarrafas para pegar peixe, buzinas, flautas, cocar de pena de gavião, chapéu de palha, cinturão, vestimenta de chefe.

Quando estava próximo de sua viagem de retorno, ao anoitecer, Yaix Buxka reuniu todos e pegou um livro grande que havia trazido. Mostrou a todos e leu. Ele continha a vida dos caxinauás, o mito da queixada, da Nete Bekum, tinha todos os mitos. Todos se acercaram dele, que lia o livro. Ele suava muito. Os caxinauás que viam o livro diziam: “É como nossa língua: Quem será que lhe ensinou a ‘origem da nossa família’? O Alemão deve ser uma pessoa da nossa família que se separou e agora voltou para ficar conosco. Assim vamos ser generosos com ele, sem temor, e tê-lo como alguém dos nossos”.

Dessa forma, ficou com eles por um tempo. Ao regressar à sua cidade, levou todos os objetos caxinauás que havia conseguido no rio Xapuya. Levou o que conseguiu para sua cidade, que se chama São Paulo.



Huni Kuin hiwepaunibuki. A história dos Caxinauás por eles mesmos. Organização Eliane Camargo; Diego Villar; Texerino Capitán; Alberto Toribo. Edições Sesc São Paulo, 2013. 304p. ilustrado.



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