Estou vivo: bordados de Feliciano Centurión


Feliciano Centurión (Paraguai, 1962-1996) foi um artista visual cuja obra é caracterizada pela técnica do bordado.


Em 1973, mudou-se com a família para a Argentina, fugindo da ditadura paraguaia de Alfredo Stroessner. Esse trânsito futuramente se mostraria benéfico, pois Feliciano se tornaria uma espécie de ponte entre os artistas paraguaios e os artistas argentinos da sua geração.


Com formação em Artes Visuais, Feliciano Centurión foi um artista premiado, chegando a participar da Bienal de Havana em 1994, como artista representante do Paraguai.


A trama e o tecido sempre estiveram presentes na obra de Feliciano Centurión. Seus primeiros trabalhos eram pinturas de animais em extinção, passando em seguida a pintar flores com formato de estrelas, em uma temática onírica. Em ambas as fases, utilizava acrílica sobre cobertores. Após ser diagnosticado com HIV positivo, abandona essa estética kitsch e passa a trabalhar com o bordado, com o ñandutí (renda tradicional paraguaia) e com o macramê, técnicas comuns não só na cultura paraguaia como também entre as mulheres da família de Feliciano.


A presença de mensagens nos bordados progressivamente vai convertendo a obra de Feliciano Centurión em um diário, um relato íntimo entreaberto, conciso e poético de um indivíduo soropositivo acerca de suas subjetividades perpassando questões de gênero e de sexualidade. Objetos têxteis da intimidade – panos, almofadas, lençóis, fronhas e travesseiros – empregados em um prática comumente associada ao feminino são os meios pelos quais Feliciano Centurión expressa a rotina dos exames, a angústia frente a cada resultado e a esperança em floração. Muitas vezes, o espectador-destinatário das afirmações bordadas parece ser o próprio Feliciano (a essa altura, impressiona como as comparações com a obra do artista brasileiro José Leonilson [1957-1993] vão se tornando quase incontornáveis).


Em 7 de novembro de 1996, em decorrência de complicações ligadas a AIDS, Feliciano Centurión faleceu. Suas últimas obras foram uma série de travesseiros bordados.


Que en nuestras almas no entre el terror. 1992.


Revelame tu mensaje. 1992.

Florece. 1990-93.

Te quiero. s/d.

Estoy vivo. 1994.

Paraiso florecido. 1995.

Tu presencia se confirma entre nosotros. s/d. Bordado em Ñandutí, renda tradicional paraguaia. Seu nome vem do guarani e significa “teia de aranha”.

Mi sangre limpia su memoria. 1995.

Renazco a cada instante. 1995.

Mis globulos rojos aumentan. c.1996.

En el silencio del descanso. s/d.


Mi casa es mi templo. c.1996.

Vivir es todo sacrificio. 1996.

Luz divina del alma. c.1996.

Suena. 1996.


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