Quatro poemas de Dambudzo Marechera traduzidos por Rogério Bettoni

Dambudzo Marechera (Zimbábue, 1952-1987) foi poeta e escritor. Durante toda a sua infância e juventude, seu país ainda era uma colônia britânica, a Rodésia do Sul. As guerras e conflitos pela independência – e as consequências não só sociais mas afetivas e psicológicas desse processo – atravessam fortemente a obra de Dambudzo Marechera, de considerável inclinação autobiográfica.


O contexto familiar também foi decisivo na formação do poeta e na consolidação da raiva como a experiência que alicerça a sua visão de mundo. Ainda criança, ao ver o cadáver do pai, Dambudzo ficou gago. Além desse trauma, muitos problemas financeiros decorreram após a morte do seu pai, o que forçou a mãe de Dambudzo a se prostituir. Realizando parte de seus estudos em Londres, sentia-se solitário e isolado. Já tendo retornado ao Zimbábue, a explosão de uma bomba mata a irmã de Dambudzo, no que se constatou ser um ataque idealizado pelo governo do apartheid.


Dambudzo Marechera. 1985. Créditos: Tessa Colvin.


Dambudzo Marechera em seu apartamento, localizado na 8 Sloane Court, em Harare. Março de 1986. A escultura ao fundo foi feita por Bernard Matemera, e dada a Dambudzo pelo próprio artista. Créditos: Ernst Schade.


Dambudzo Marechera lendo um poema durante a International Book Fair Harare, na First Street Mall, em Harare. 1983. Créditos: Tessa Colvin.


Flora Veit-Wild e Dambudzo Marechera no jardim do 8 Boscobel Drive East, Harare. 1985. Créditos: Lourdes Mugica Arruti.


Estudantes da Universidade do Zimbábue e Flora Veit-Wild, em homenagem a Dambudzo Marecheranoprimeiro ano de sua morte. 1988. À esquerda de Flora está Tendai Laxton Biti, que se tornaria uma importante figura política no Zimbábue. Em 1999, Tendai ajudou na criação do partido Movement for Democratic Change – MDC. Créditos: Flora Veit-Wild.


Fac-símile de um poema datilografado por Dambudzo Marechera. Créditos: Dambudzo Marechera e Anja Schwarz.


Manuscrito de Dambudzo Marechera rasgado e, posteriormente, colado. Nele, constam um poema, intitulado “A Walk through Sherwood Drive”, ideias para um título e endereços de revistas e editoras para as quais, possivelmente, Dambudzo enviaria alguns de seus escritos. Créditos: Dambudzo Marechera e Anja Schwarz



Dambudzo se definia como um doppelganger da literatura africana – embora rejeitasse esse tipo de qualificativo pátrio sobre si e sobre sua obra. “My name is not Money / – but mind”, afirmava em um poema. Intempestivo, pressionava as editoras para que seus livros fossem publicados, insultava críticos e debatia com professores universitários questionando seus métodos pouco didáticos ainda baseados em uma perspectiva colonial e racista. Embora as leituras que cruzam vida e obra de modo indissociável sejam, geralmente, problemáticas, a rebeldia e a contestação, muitas vezes violenta, presentes na obra de Marechera encontram um par, também, no próprio comportamento e posicionamento do poeta frente ao mundo.


Para Dambudzo, a poesia é um trabalho com a linguagem que dissolve a idealização da realidade. Todo virtuosismo gratuito dentro dela carrega contradições que precisam ser expostas e debatidas. Poesia é um exercício do incômodo, da desestabilização do lugar comum: daí a importância de ela ser agressivamente crítica. Aquele que se propõe a escrever POESIA (em caixa alta, como Dambudzo grafa) deve assumir a responsabilidade que esse compromisso exige, mesmo que se converta em um pária, um outsider da linguagem.


Dambudzo publicou três livros em vida: The House of Hunger (1978, premiado com o Guardian First Book Award), Black Sunlight (1980) e Mindblast (1984). Após sua morte, em decorrências das complicações da AIDS, Dambudzo Marechera se tornou exemplo de poeta e intelectual cultuado entre os jovens zimbabuanos, uma figura de rebeldia e contestação inspirando engajamento artístico, social, educacional e político. Seus manuscritos e obras póstumas foram publicados graças ao trabalho de recolha e catalogação muito precisa feita por amigos da Universidade do Zimbábue, por Flora Veit-Wild, uma de suas professoras, e por Anja Schwarz, sua principal editora. Grande parte desse material, além de documentos, fotos e áudios está em um acervo dedicado ao poeta na Universidade de Humboldt, na Alemanha, e pode ser acessado pelo site da instituição.


Ainda não há obras de Dambudzo Marechera traduzidas para o português. Alguns de seus poemas possuem traduções espalhadas em blogs e em artigos como objeto de pesquisa. Trazemos aqui quatro poemas de Dambudzo Marechera traduzidos pelo tradutor Rogério Bettoni – a quem agradeço pelo abertura frente a minha indicação / provocação de ler e traduzir a poesia de Dambudzo Marechera, assim como pelas notas e comentários acrescidos. Os poemas foram extraídos de duas obras: Cemetery of Mind: Collected Poems of Dambudzo Marechera. (Harare: Baobab Books, 1992) e The Kamikaze Pilot Returns & Other Poems, reunião de poemas escritos por Dambudzo em 1983 e que nunca foi editada e publicada.



Poemas de Dambudzo Marechera

Tradução: Rogério Bettoni.


Identify the Identity Parade


I am the luggage no one will claim;

The out-of-place turd all deny

Responsibility;

The incredulous sneer all tuck away

beneath bland smiles;

The loud fart all silently agree never

happened;

The sheer bad breath you politely confront

with mouthwashed platitudes: "After all, it's

POETRY."

I am the rat every cat secretly admires;

The cat every dog secretly fears;

The pervert every honest citizen surprises

in his own mirror: POET.



Identifique a Parada da Identidade


Sou a bagagem reivindicada por ninguém;

A bosta fora do lugar pela qual ninguém

se responsabiliza;

O incrédulo desdém que todos escondem

atrás do sorriso amarelo;

O peido ruidoso cujo acontecimento

todos negam

em silêncio;

O mero mau hálito que você confronta polidamente

com chavões de boca enxaguada: “Afinal, é

POESIA.”

Eu sou o rato que todo gato admira em segredo;

O gato que todo cão teme em segredo;

O perverso que todo cidadão honesto surpreende

no próprio espelho: POETA.




Did You Ask What's Wrong with War?


There are no wrong words, right?

There are no wrong trees, right?

There is no wrong sand, right?

I've slept the world in frilly

underwear

Dreamed I buggered all the little boys

who are future leaders

Fucked all the funny little girls made of

thatch and ghandy

My anarchist arse has shat on society

And LOOK millions of open flies

are homing in on your wide-open lips.



Você perguntou o que há de errado com a guerra?


Não há palavras erradas, certo?

Não há árvores erradas, certo?

Não há areia errada, certo?

Botei o mundo para dormir

com roupa íntima de babado

Sonhei que fodia todos os garotos

que são futuros líderes

Comia todas as engraçadinhas feitas de

capim e pele

Meu cu anarquista cagou na sociedade

E VEJA milhões de braguilhas abertas

voltadas para seus lábios bem abertos.



N.T.: Neste poema, duas palavras chamam a atenção. A primeira é ghandy. Pela ausência de referência para essa palavra, o que mais se aproxima disso, pressupondo que a língua original dele é o shona, seria “ganda”, que significa “pele”.

A outra é a expressão open flies. “Open flie” é braguilha aberta, e não se refere a moscas. A imagem aqui, por contiguidade, é de um cadáver de boca aberta, com um monte de homens mijando dentro dela.



I used to like tomatoes


I get tired of the blood

And the coughing

and more blood

I get out of that flat real fast

to some cool quarrelling bar

and talk big to bigger comrades

washing down the blood with Castle an' Label

shaking hands about Tsitsi bombed to heaven

trying to forget I don't like cooking in dead people's

pots and pans

I don't like wearing and looking smart-arse in dead

people's shirts an' pants

(They said yoh mama an' bra been for you

said these are your inheritance)

I'm soon tight as a drum can't drink no more

It's back at the flat on my back

swallowing it all red back hard down

I woke up too tired to break out so bright red a bubble.



Eu costumava gostar de tomates


Fico cansado do sangue

E da tosse

e de mais sangue

Saio ligeiro daquele apê

rumo às pelejas de um bar qualquer

e tiro onda com camaradas de maiores ondas

engolindo o sangue com Castle e Label

balançando mãos que se apertam por Tsitsi bombardeada aos céus

tentando esquecer que detesto cozinhar nas panelas

de gente morta

detesto parecer foda ao usar roupas

de gente morta

(Disseram sua mãe e seu irmão te procuraram

disseram essa aí é sua herança)

Logo cheio igual leitão nem consigo mais beber

De regresso ao apê de dorso no chão

engolindo difícil toda essa vermelhidão

acordei cansado demais para estourar bolha assim tão vermelha.


N.T.: Castle e Label são referências ao rótulo de duas cervejas comuns no Zimbábue;

Em 14 de maio de 1987, a explosão de uma bomba provocada supostamente pelo governo do apartheid matou Tsitsi Chiliza, irmã do poeta, casada na época com um membro do Congresso Nacional Africano, exilado em Harare. A bomba havia sido plantada dentro de um aparelho de TV que deveria ser entregue como presente ao político Jacob Zuma.



The Trees of This City


Trees too tired to carry the burden

Of leaf and bud, of bird and bough

Too harrased by the rigours of unemployment

the drought-glare of high rents

And the spiralling cost of water and mealie meal

Trees shrivelled into abortion by the forest fires

Of dumped political policies

Trees whose kachasu-veined twig-fingers

Can no longer clench into the people's fist

But wearily wipe dripping noses, wearily wave away

The fly-ridden promises issuing out of the public

Lavatory

Trees under which, hungry and homeless,

I emerge from seed to drill a single root into the

Salt stone soil

The effort a scream a despair


As árvores dessa cidade


Árvores cansadas demais de carregar o fardo

de folhas e brotos, de pássaros e ramos

Abusada demais pelos rigores do desemprego

a mirada seca dos altos aluguéis

E o preço da farinha de milho que sobe vertiginoso

Árvores levadas ao aborto pelo fogo florestal

De planos políticos abandonados

Árvores cujos dedos espigados bombeiam cachaça

não mais se fecham em punho de ninguém

mas exaustos limpam o corrimento nasal, exaustos espantam no ar

Promessas enfestadas de moscas que emanam do

Banheiro público

Árvores sob as quais, faminto e sem-teto,

eu surjo das sementes para implantar uma única raiz no

Rochoso solo salino

O esforço um grito um exaspero


N.T.: kachasu: bebida destilada e ilegal no Zimbábue consumida geralmente pelos pobres. Algumas fontes afirmam que a palavra deu origem à bebida brasileira e ao termo “cachaça”.


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