Dirce Waltrick do Amarante traduz Edward Lear



Edward Lear foi um escritor, pintor e desenhista. Embora seja creditado como o inventor do limerique, convém dizer que essa forma poética já existia dentro da tradição literária, sendo que Lear – que chamava seus poemas não de limericks, mas de nonsenses – segue a norma rítmica e compacta dessa forma tradicional.


Um limerique possui cinco versos em uma única estrofe, com forte esquema rítmico e rimas, gerando uma musicalidade lúdica. Em função dos versos 3 e 4 serem curtos, e rimarem entre si, geralmente eles são reorganizados em um único verso, produzindo ocasionalmente uma quadra. Conciso, o limerique subverte o discurso articulado para garantir uma narrativa cômica e anedótica.


Embora possua variações, o modelo de limerique de Edward Lear pode ser esquematizado. Um bom limerique deve ter um personagem, geralmente identificado com um adjetivo-rótulo, que está em um dado lugar (verso 1) praticando uma determinada ação a qual já aparente ser absurda (verso 2). Esse adjetivo-rótulo serve para gerar expectativa, estranhamento ou ser uma espécie de valise que será acionada em um momento oportuno do poema. Os versos 3 e 4 comumente apresentam alguma virada ou adendo ao cenário construído nos dois primeiros versos. Interligados, o verso 3 apresenta uma circunstância cuja consequência é evidenciada logo em seguida no verso 4. Esse jogo rápido entre os versos é um dos dispositivos de comicidade do limerique. O último verso é um fecho formado pela repetição do primeiro verso, com pouca alteração.


Os limeriques de Edward Lear apresentam grande diversidade de relações e de efeitos de sentido obtidos a partir do manejo da tradição, tornando-se improdutivo e reducionista uma catalogação única. Assim, cada limerique demanda sua própria apreciação. Na literatura brasileira, há limeriques escritos por autores como Joaquim de Sousândrade (1833-1902) e Clarice Lispector (1920-1977), e contemporâneos como Tatiana Belinky.


Com exceção do segundo limerique, cuja tradução é inédita, as traduções aqui apresentadas estão presentes na obra Viagem numa peneira : poesia e prosa (Iluminuras, 2011, 162p) com organização, apresentação, tradução e notas de Dirce Waltrick do Amarante - a quem agradecemos por ter aceito o nosso convite e gentilmente autorizado esta publicação.














There was an Old Man of Peru,

Who watched his wife making a stew;

But once, by mistake, in a stove she did bake

That unfortunate Man of Peru


(in A Book of Nonsense. 1846)


Havia um velho de Belgrado

Que via a mulher fazer um assado;

Mas um dia ela se enganou e no forno quente cozinhou

Aquele desgraçado velho de Belgrado












There was an Old Person of Troy,

Whose drink was warm brandy and soy,

Which he took with a spoon, by the light of the moon,

In sight of the city of Troy.


(in A Book of Nonsense. 1846)


Havia um velho de Resende

Que tomava cloroquina com brandy,

Da colher a sorvia, durante a noite fria,

Enquanto fitava Resende.











There was an old lady of France,

Who taught little ducklings to dance;

When she said, "Tick-a-tack!" they only said, "Quack!"

Which grieved that old lady of France.


(in More Nonsense Pictures, Rhymes, Botany etc. 1872)


Havia uma senhora da França,

Que aos patinhos ensinava dança;

Quando dizia: "Talá-tacá", eles só repetiam: "Quá!",

Mortificando a senhora da França.



Dirce Waltrick do Amarante é ensaísta, tradutora e escritora, professora de Artes Cênicas e do Programa de Pós-graduação em Estudos da Tradução da UFSC. É autora de As antenas do caracol: notas sobre literatura infanto juvenil, Pequena biblioteca para crianças: um guia de leitura para pais e professores, e Para ler ‘Finnegans wake’ de James Joyce. Além disso, foi coorganizadora e cotradutora, com Sérgio Medeiros, da obra De santos e sábios, uma antologia de textos estéticos e políticos de James Joyce, e Cartas a Nora. Pesquisadora da literatura nonsense de Edward Lear, Dirce Waltrick do Amarante traduziu muitos de seus limeriques, publicados em Viagem numa peneira (2011) e Conversando com varejeiras azuis (2016) ambos publicados pela editora Iluminuras. Em breve, lançará o terceiro volume da poesia e prosa de Edward Lear.










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