Entre ser um e ser mil: livros de artista de Fábio Morais



Diferentemente do livre d’artiste – catalogação já consagrada dentro de uma determinada definição – o livro de artista não é um obra editorial e bibliográfica que traz nela publicações de arte: o livro ele mesmo é o objeto de arte. Como um espaço híbrido cuja ação possui um estado de abertura capaz de expandir e ultrapassar até a própria concepção tradicional de livro, o livro de artista é um campo de investigações nas quais as relações entre suporte, palavra, imagem e técnica demandam outras leituras, outras coreografias e outras experiências performativas entre o livro, o leitor e o mundo.

Desse modo, cada livro de artista é único, pois funda a partir de si a sua própria gramática. Logo, cada definição sobre o que é um livro de artista sempre tende a ser parcial, servindo mais como um ponto de partida para a compreensão de seus processos e percursos, de suas materialidades e linguagens.

Nesse contexto, apresentamos os livros de artista de Fábio Morais (São Paulo, 1975). Artista visual e editor, organizou a “Turnê”, feira itinerante de arte impressa, além de ser responsável pela curadoria da exposição “Bacanas Books”, dentro do núcleo editorial da Feira Internacional de Arte SP-Arte, em 2013. Com publicações e exposições, algumas delas em parceira com a artista Marilá Dardot, Fábio Morais tem no livro um campo de trabalho e de experimentação artística. Sobre a pergunta “O que é um livro de artista?”, Fábio Morais responde: “é um livro; é uma prática editorial que, semelhante à performance, ao vídeo, ao site specific ou à arte postal, expandiu e hibridizou a natureza do que se entende por artes visuais subvertendo seus paradigmas, inclusive o das categorias claramente definidas”.


A conversa infinita. 2007. 5 exemplares. A partir de A conversa infinita: A palavra plural, de Maurice Blanchot, Fábio Morais propõe uma reelaboração dessa obra em dois volumes: em um, estão apenas as consoantes; no outro, apenas as vogais, cabendo ao leitor a necessidade de realizar uma leitura conjunta e recombinatória.


Sebo. 2007. 600 exemplares. Esse livro de artista é composto a partir da reprodução de selos e carimbos presentes em livros vendidos em sebos. Além disso, são reproduzidos também objetos diversos encontrados dentro desses livros.


Oferenda à Iemanja para um feliz Ano Novo. 2007. Mapas de diferentes atlas têm seus continentes e ilhas recortados, de modo a restar apenas mares e oceanos.


Romance para ser lido sob a chuva. 2008.


A teus pés. 2012. Neste livro de artista, Fábio reeditou o livro A teus pés, da poeta Ana Cristina Cesar, jogando a mancha gráfica da diagramação para o rodapé da página, imprimindo, para cada poema, todos os versos sobrepostos.


Querido diário. 2012. 500 exemplares. Livro composto a partir do recorte de letras de diferentes caligrafias e agrupadas para formar o texto.


O Amante. 2015. Livro-porta-guardanapo de metal com todas as páginas do livro L'Amant, de Marguerite Duras, de um lado e, do outro, todas as páginas da tradução para o português de O Amante


O cenário brasileiro de artistas e pesquisadores de livro de artistas, incluindo também os circuitos culturais e editoriais dos coletivos e das feiras, cresceu bastante nas últimas décadas. A quem deseja conhecer mais sobre o livro de artista, ficam aqui algumas ótimas referências:


https://www.instagram.com/colecaolivrodeartista/ (maior acervo público de livros de artista da América Latina, com cerca de 1.500 livros de artista, além de obras de referência, revistas especializadas e revistas de artista);

https://www.instagram.com/nucleolivrosdeartista/;

https://www.instagram.com/_tijuana/,

https://www.instagram.com/feiraflamboia/,

https://www.instagram.com/plataformaparentesis/

e https://www.instagram.com/loreleybooks/ - pequena sugestão de circuito de feiras e de editoras voltadas para a pesquisa, publicação e circulação de livros de artista.



Entre as publicações sobre o tema, indicamos:


- Entre ser um e ser mil : O objeto-livro e suas poéticas (Editora Senac, 250p.) organizado pela artista gráfica, editora e pesquisadora Edith Derdyk;


- O Livro de Artista e a Enciclopedia Visual (Editora UFMG, 655p.), do artista gráfico e professor da Escola de Belas Artes da UFMG Amir Brito Cadôr – que também é um dos responsáveis pela Coleção Livro de Artista (aliás, fica aqui também o convite para vocês acessarem a plataforma issuu na qual Amir Brito reúne uma série de livros de artistas: https://issuu.com/amir_brito);


- A Nova Arte de Fazer Livros (Editora C/Arte, 72p. A tradução é de Amir Brito Cadôr), do artista e crítico de arte Ulises Carrión, grande referência acerca do trabalho gráfico e editorial como prática artística.

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