“Os letrados” e “Escrito com L”: dois poemas de Gonzalo Rojas (Chile, 1916-2011)



Poeta, professor e ensaísta, Gonzalo Rojas integrou o grupo surrealista chileno, contribuindo entre os anos de 1938 e 1943 na revista Mandragora, principal publicação do movimento. Antes de seguir a carreira acadêmica como cátedra de Teoria Literária e Estética, Gonzalo Rojas também foi, por muito tempo, alfabetizador de jovens e adultos trabalhadores da região de Atacama.


Com o golpe militar no Chile, em 1973, Gonzalo se exilou na Alemanha e na Venezuela, retornando ao seu país somente em 1994. A experiência do exílio marcou profundamente a sua poética, a ponto de Gonzalo Rojas recorrer a um neologismo para conseguir expressá-la: o transtierro, algo como trânsito + desterro.


Aqui, apresentamos dois poemas: “Los Letrados”, da obra Contra la muerte (Editorial Universitaria, Santiago, 1964), e “Escrito com L”, de Oscuro (Monte Ávila Editores, Caracas, 1977). Em ambos se destaca outra característica da poesia de Gonzalo Rojas: a crítica ao intelectualismo, à arrogância da erudição de seus pares acadêmicos, de seus circuitos e de seus habitus (tomando aqui o conceito de Pierre Bourdieu, outro observador atento à institucionalização do saber como elemento de distinção - e de opressão - social).


No Brasil, há uma compilação de sua obra publicada em Antologia Poética de Gonzalo Rojas (Editora Universidade de Brasília, 2018. 200p.), com tradução de Eric Nepomuceno. Essa publicação pode ser baixada gratuitamente na área "Acesso Livre" do site da editora.

Os letrados

Tradução: Jorge Miranda

Eles prostituem tudo

com seu ânimo gasto em circunlóquios.

Eles explicam tudo. Monologam

como máquinas cheias de óleo.

Eles mancham tudo com sua baba metafísica.

Eu queria vê-los nos mares do sul

uma noite de vento real, com a cabeça

esvaziada a frio, cheirando

a solidão do mundo,

sem lua,

sem explicação possível,

fumando no terror do desamparo.


* * * * *


Escrito com L

Tradução: Jorge Miranda

Muita leitura envelhece a imaginação

do olho, solta todas as abelhas mas mata o zumbido

do invisível, corre, cresce

tentacular, se arrasta, sobe ao vazio

do vazio, em nome

do conhecimento, polvo

de tinta, paralisa a figura do sol

que há em nós, nos

viciosamente mancha.

Muita leitura entristece, muita envilece

fedemos

a velhos, os gregos

eram os jovens, somos nós os turvos

como se os papiros disseram algo distinto ao anjo do ar:

somos nós os soberbos, eles eram inocentes

nós os do moscaréu, eles eram os sábios.

Muita leitura envelhece a imaginação

do olho, solta todas as abelhas mas mata o zumbido

do invisível, acaba

não tanto com o L da famosa lucidez

mas com esse outro L

da liberdade,

da loucura

que ilumina o fundo

do lúgubre

do labirinto,

lambda

louca

lampíride

antes do fósforo, muito antes

do latido

do Logos.


Los letrados


Lo prostituyen todo

con su ánimo gastado en circunloquios.

Lo explican todo. Monologan

como máquinas llenas de aceite.

Lo manchan todo con su baba metafísica.

Yo los quisiera ver en los mares del sur

una noche de viento real, con la cabeza

vaciada en frío, oliendo

la soledad del mundo,

sin luna,

sin explicación posible,

fumando en el terror del desamparo.


* * * * *


Escrito con L

Mucha lectura envejece la imaginación

del ojo, suelta todas las abejas pero mata el zumbido

de lo invisible, corre, crece

tentacular, se arrastra, sube al vacío

del vacío, en nombre

del conocimiento, pulpo

de tinta, paraliza la figura del sol

que hay en nosotros, nos

viciosainente mancha.

Mucha lectura entristece, mucha envilece

apestamos

a viejos, los griegos

eran los jóvenes, somos nosotros los turbios

como si los papiros dijeran algo distinto al ángel del aire:

somos nosotros los soberbios, ellos eran inocentes

nosotros los del mosquerío, ellos eran los sabios.

Mucha lectura envejece la imaginación

del ojo, suelta todas las abejas pero mata el zumbido

de lo invisible, acaba

no tanto con la L de la famosa lucidez

sino con esa otra L

de la libertad,

de la locura

que ilumina lo hondo

de lo lúgubre

del laberinto,

lambda

loca

luciérnaga

antes del fósforo, mucho antes

del latido

del Logos.


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