Três poemas de Konstantinos Kaváfis


Konstantinos Kaváfis (Κωνσταντίνος Καβάφης - Egito, 1863-1933) é um dos mais importantes poetas gregos do século XX. Nascido em uma comunidade grega na cidade de Alexandria – a qual é de muita importância na vida e na obra do poeta – Kaváfis produziu uma poética na qual se encontra um sujeito simultaneamente particular e histórico, desafiado a carregar tanto a tradição quanto as próprias subjetividades.


Uma das principais características da poesia de Kaváfis é o diálogo entre o passado e o presente: A beleza e a tragicidade da arte grega convivem com o prazer de um eros pulsante e a melancolia de um corpo que solitariamente envelhece. Tal aproximação também ocorre de outros dois modos na poesia de Kaváfis: tematicamente, no qual a paisagem urbana contemporânea com cafés, lojas, igrejas e portos, identificados com marcações cronológicas, não escondem nem a Alexandria de outrora nem a Grécia dos templos, das ágoras e necrópoles, dos filósofos, dos grandes oradores e personalidades políticas; e formalmente, em uma poética cuja dicção beira a aproximação com a prosa (incluindo a mistura de termos arcaicos com expressões coloquiais) em um exercício discursivo elaborado para atribuir ao poema um tom reflexivo – ou, nas palavras de Giórgos Seféris, outro grande poeta da língua grega – propor um “verso que pensa”, que se destina a desenvolver determinado raciocínio sem que afete o coeficiente lírico.


Talvez esses pares de diálogo explicitem outra característica da poesia kavafiana: o embate com o esquecimento. A vida em Alexandria, cidade de legados cosmopolitas, e a origem grega, cujo peso cultural para o Ocidente é muito relevante, parecem ter moldado – quando não exigido – em Kaváfis uma percepção muito particular da memória: não só a histórica, lida sobretudo em ruínas, mas a íntima, a memória do corpo, do desejo homoerótico velado, da beleza sensual da juventude e da potência criadora da arte.


Ao longo de sua vida, Konstantinos Kaváfis escreveu 154 poemas, os quais, por hábito, numerava. O poeta faleceu no dia do seu aniversário, 29 de abril. Sua poesia conta com boa circulação em português, sendo traduzido por nomes como Haroldo de Campos, José Paulo Paes e Trajano Vieira. Os três poemas aqui selecionados possuem tradução de Ísis Borges da Fonseca, professora de Grego Clássico e fundadora do curso de Língua Neo-Helênica da FFLCH – USP, e estão presentes na edição Poemas de K.Kaváfis (2006, 408 p.) publicada pela editora Odysseus (a qual recomendamos para todos os que se interessam por literatura e filosofia gregas e cultura helênica).



Θυμήσου, σώμα Σώμα, θυμήσου όχι μόνο το πόσο αγαπήθηκες, όχι μονάχα τα κρεββάτια όπου πλάγιασες, αλλά κ' εκείνες τες επιθυμίες που για σένα γυάλιζαν μες στα μάτια φανερά, κ' ετρέμανε μες στη φωνή -- και κάποιο τυχαίον εμπόδιο τες ματαίωσε. Τώρα που είναι όλα πια μέσα στο παρελθόν, μοιάζει σχεδόν και στες επιθυμίες εκείνες σαν να δόθηκες -- πώς γυάλιζαν, θυμήσου, μες στα μάτια που σε κύτταζαν· πώς έτρεμαν μες στη φωνή, για σε, θυμήσου, σώμα.


Lembra, corpo Corpo, lembra não só quanto foste amado, não somente os leitos em que deitaste, mas também aqueles desejos que por ti brilhavam nos olhos claramente, e que tremiam na voz – e que algum obstáculo fortuito frustrou. Agora que tudo já está no passado, parece, quase, que àqueles desejos também tu te entregaste – como eles brilhavam, lembra, nos olhos que te contemplavam; como tremiam na voz, por ti, lembra, corpo.


Ετσι πολύ ατένισα

Την εμορφιά έτσι πολύ ατένισα, που πλήρης είναι αυτής η όρασίς μου.

Γραμμές του σώματος. Κόκκινα χείλη. Μέλη ηδονικά. Μαλλιά σαν από αγάλματα ελληνικά παρμένα· πάντα έμορφα, κι αχτένιστα σαν είναι, και πέφτουν, λίγο, επάνω στ' άσπρα μέτωπα. Πρόσωπα της αγάπης, όπως τάθελεν η ποίησίς μου... μες στες νύχτες της νεότητός μου, μέσα στες νύχτες μου, κρυφά, συναντημένα...


Tanto contemplei


Tanto contemplei a beleza

que minha vista dela se fartou.


Linhas do corpo. Lábios rubros. Membros sensuais.

Cabelos como que tomados de estátuas gregas:

sempre belos, mesmo quando estão despenteados,

e caem, um pouco, sobre a fronte branca.

Rostos do amor, assim como os desejava

minha poesia... nas noites de minhas juventude,

em minhas noites, às ocultas, encontrados...



Όσο μπορείς

Κι αν δεν μπορείς να κάμεις την ζωή σου όπως την θέλεις, τούτο προσπάθησε τουλάχιστον όσο μπορείς: μην την εξευτελίζεις μες στην πολλή συνάφεια του κόσμου, μες στες πολλές κινήσεις κι ομιλίες.

Μήν τήν εξευτελίζεις πιαίνοντάς την, γυρίζοντας συχνά κ' εκθέτοντάς την, στων σχέσεων και των συναναστροφών την καθημερινήν ανοησία, ως που να γίνει σα μιά ξένη φορτική.


Quanto possas


E se não podes fazer tua vida como a queres,

esforça-te pelo menos nisto,

quanto possas: não a degrades

na convivência demasiada com as pessoas,

nos demasiados movimentos e colóquios.


Não a degrades levando-a,

trazendo-a frequentemente e expondo-a

à estupidez cotidiana

das relações e das companhias,

até que se torne pesada como uma estranha.


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