Da galinha às “Linhas de fuga”



Traçou uma linha reta no chão com um pequeno pedaço de giz, indo do bico da galinha a uns vinte centímetros adiante e nada. Soltou a cabeça da galinha e nenhum movimento. A galinha ficou ali parada, parecia não saber o que fazer. Hipnose? Eis uma linha. Uma resposta e de repente outras tantas perguntas. O que veio antes, o ovo ou a ga-linha? Seria isso uma espécie de gagueira? Talvez não, esta pergunta tem ares de um falso problema. Dizem que a galinha não é perita em vôos –“lines of flight(conforme traduções para o inglês da noção de “lignes de fuite” em Deleuze e Guattari) – talvez se dê melhor com ovos, em particular, quando literalmente está pisando em ovos. Fica a impressão de que este não é um animal de muitas afecções. A galinha não costuma se dar muito bem com as linhas de giz.


Traçar linhas, às vezes tortas, às vezes retas, sinuosas, curvilíneas, noutras ocasiões, perpendiculares, transversais, pontilhadas, pouco importam as inúmeras formas, talvez valha mais acompanharmos suas forças, intensidades e diferenças. Cartografar, ou seja, seguir a trajetória das linhas e suas variações contínuas em movimento.


Somos feitos de linhas, conforme Deleuze e Guattari, e isto vale para indivíduos e grupos. E as linhas são de naturezas bem diversas, se entrelaçando em um emaranhado imanente. Existem as linhas de segmentaridade, que podem ser duras ou mais flexíveis, nos alocando em segmentos, ou nos permitindo certa mobilidade de um segmento a outro. Você nasce em uma linha de família. Homem, mulher, também são linhas, daí para a escola, para a fábrica, para o quartel, para a igreja, de uma linha de segmentaridade dura a outra, de um segmento a outro, você ouve: “Vai ter de se enquadrar!”, que é o mesmo que se alinhar, ou “entrar na linha”. As linhas de segmentaridade dura são importantes em nosso processo de subjetivação, mas é possível estar em uma linha e ao mesmo tempo traçar outra(s). As linearidades não são o problema, desde que sejamos capazes de elastecer uma e várias linhas, uma multiplicidade. Tal como na arte do corte e costura, da trama e da urdidura, do ponto em cruz, do patchwork e as linhas que fazem parte do desenrolar de nossas práticas no cotidiano. Se alguém te perguntar qual é a sua linha, não perca a linha, desenrole, desfie, desafie.


E há também as linhas de fuga “lignes de fuite”, algo tal como um desalinhar, propor novos arranjos e alinhar de novo. Recordo-me da personagem vivida pela cantora islandesa Björk no filme Dançando no Escuro de Lars von Trier. À medida que esta personagem se tornava cega, trabalhando na linha de produção de uma fábrica, ela dançava, traçando uma linha de fuga que a levava à ambiência de um musical, no qual podia se alinhar a outras tantas linhas de força e vitalidade. Traçar uma linha de fuga é produzir algo real, não é se perder no imaginário. Não é a atitude de um covarde, mas tal como Deleuze nos sugere, é encontrar uma arma.


Trace uma linha, em seguida outra, lembre-se também que “dar linha” na linguagem usada nas esquinas é algo como sair, evadir, escapar, deslocar, o mesmo que traçar outra linha, n’outro lugar. E o que são as esquinas? Encruzilhadas, cruzamento de linhas. Linha branca e linha negra e as linhas que compõem uma esquina, ou melhor, uma encruzilhada. E não se esqueça da galinha preta, da vela, do charuto e da garrafa de pinga para um bom despacho. É nas esquinas que as urgências se afirmam, pessoas se alinham enfileiradas, é tudo feitiço! De repente avistamos um bêbado e seus passos que fazem do ziguezague a nova linha reta.


Rogério Felipe é psicólogo e professor universitário com mestrado em psicologia social pela UERJ. Trabalha com os balizamentos conceituais da Análise Institucional, Esquizoanálise e do Construcionismo Social. Realiza atendimentos clínicos, palestras, esquizodramas e intervenções psicossociais em organizações e pequenos grupos nas áreas de Educação, Trabalho, Artes, entre outras atividades.

Oficina Palimpsestus - 2020. Todos os direitos reservados.