Um iniki do espírito do Gavião Preto transportado pelo xamã marubo Armando Cherõpapa

Os Marubos são um povo indígena que vive na região do Vale do Javari (AM), no alto curso dos rios Curuçá e Ituí, da bacia do Javari. Na região, também vivem os Korubo, Mayá, Matis, Matsés, Kanamari e Kulina Pano, além de outros povos indígenas isolados.


Sobre a poética marubo, destaca-se a pesquisa do professor e pesquisador Pedro de Niemeyer Cesarino : «Os Marubo possuem uma vasta, complexa e ativa tradição oral, distribuída em gêneros diversos (tais como as narrativas míticas cantadas, os cantos de cura, os cantos de espíritos, os diálogos cerimoniais, as falas de ensinamento e outros), que são dominados por pajés (ou xamãs) especializados. O repertório de cantos se baseia em um sistema de fórmulas poéticas bastante rigoroso e de estrutura fechada, mas com certa abertura para inovações. Tal sistema é repleto de metáforas especiais, de sobrevivências da língua dos antepassados, de ironias, de alusões a situações obscuras, de referências condensadas a episódios míticos e etiologias diversas, de expressões específicas das línguas dos espíritos e do sistema de cura, entre outras características que tornam muitos dos cantos incompreensíveis mesmo a um marubo não iniciado na erudição verbal. »


Um iniki é um dos cantos xamânicos do povo indígena Marubo. Nos ritos, alguns com com o uso consagrado da ayahuasca, do rapé e do lírio, o iniki é cantado por um espírito, que encontra no romeya – o xamã marubo – o seu corpo-maloca, isto é, um transmissor e um de seus interlocutores. O iniki geralmente é curto, imagético e perpassado por simbologias pouco acessíveis aos que não são iniciados. Nesse contexto, questões de autoria e de tradução tendem a ser problemáticas, pois o xamã não é um shovimaivo – o dono, “fazedor” ou o “criador” do iniki, mas sim seu transportador, um yove vana ikiya – “aqueles que citam as falas dos espíritos’’.


Uma seleção de iniki está presente no volume 2 da revista Gratuita (organização de Maria Carolina Fenati), publicada pela editora Chão da Feira em 2015. Além da seleção, a apresentação e tradução foram feitas também por Pedro de Niemeyer Cesarino, sendo publicadas originalmente em Poesia.Br (Cantos Ameríndios), com organização de Sergio Cohn (Azougue Editorial, 2013).




“rovo shono pei

pesotanáirinõ

neri kayapakeai

mãta ea achĩa


txo yove rakati

vesoshoi shokosho

nori rivi vanai


nokeivo yora

nõ awe yovesho

nõ vesoshomaĩnõ

ari poketai

awẽ tachi inamai

a a voai


aská mipawavo”



“das costas da folha

de samaúma-japó

eu vim para cá

há tempos cheguei


da casa do caçula

juntos cuidamos

entre si cantofalamos


de gente feito nós

que conosco empajezou

nós juntos cuidamos

enquanto ele passeia

e não retorna

das outras partes


assim sempre foi”


(Tradução : Pedro de Niemeyer Cesarino)


Pedro de Niemeyer Cesarino é professor e pesquisador do Departamento de Antropologia da USP, com pesquisas sobre xamanismo, cosmologia, tradições orais, tradução e antropologia da arte. Atualmente, integra o Centro de Estudos Ameríndios (CESTA/USP).

Créditos:


CESARINO, Pedro de Niemeyer. Os relatos do Caminho-Morte: etnografia e tradução de poéticas ameríndias. In Estudos Avançados. Dossiê Tradução Literária. vol.26, n.76. São Paulo: Set./Dez.2012. p.78.


CESARINO, Pedro de Niemeyer. Cantos do espírito do Gavião Preto (Châcha yove). In Gratuita. volume 2. Organizadora Maria Carolina Fenati – Belo Horizonte: Chão da Feira, 2015. p.78-81.


CESARINO, Pedro de Niemeyer. Donos e Duplos: relações de conhecimento, propriedade e autoria entre Marubo. In Revista de Antropologia. v. 53 nº 1. USP. São Paulo: 2010.


POVOS INDÍGENAS NO BRASIL : https://pib.socioambiental.org/pt/Poéticas_indígenas


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