Um poema de Lee Mokobe



Lee Mokobe (África do Sul, 1995) é poeta trans, performador e premiado poeta de slam. Três vezes convidado a participar do ciclo de palestras TED, Lee Mokobe também é fundador da Vocal Revolutionaries, uma organização sem fins lucrativos de ensino de Literatura e Artes para jovens. Cabe mencionar aqui também, como parte importante nessa apresentação, a formação de Lee Mokobe como Pothula, um curador treinado e iniciado dentro dos ritos da Sangoma, tradicional prática medicinal, de bases xamânicas, da cultura sul africana. Centrada na tradição oral e na potência sagrada das ervas e dos cantos, o início do treinamento de um Pothula passa por duas fases: a primeira, regida pelo Indiki, o espírito de fogo masculino do Grande Avô; e a segunda, regida pela Indawu, a energia feminino do gelo da Grande Avó. Quando o iniciado na Sangoma consegue equilibrar em si essas duas forças – Indiki e Indawu, fogo e gelo, masculino e feminino – ele se torna apto a ser considerado um Pothula, se tornando, então, um guardião do poder curador das plantas e das palavras.


Como ativista LGBTQ+, Lee Mokobe apresenta uma poética pautada nas suas vivências enquanto negro, transgênero/transqueer e imigrante: a relação de estranhamento entre o corpo e o gênero, e a reconfiguração do conflito em experiência; os dilemas culturais/religiosos e as violências simbólicas sofridas pelo sujeito e seu corpo negro em transição; e a importância da arte – em especial, da poesia – como um espaço no qual um sujeito trans tenha um nome e uma história.

“Sometimes I forget that I am even trans / Because sometimes / Becoming a man is uneventful. / It just an act of endurance. / Of how much pain you can take / There is no act of initiation. / Just choice” – constata a voz poética de Lee Mokobe no poema “Growing Pains” – cujo final, no entanto, alcança outra percepção: “I am refusing to die quietly. / I am a transgender south african. And I / exist.


Apresentamos aqui o poema “SandBoy”, com tradução de Jorge Miranda e revisão de Rogério Bettoni (a quem deixo meu agradecimento pela leitura e pelas correções).



SandBoy

When we were younger All the girls on the street Were told to eat sand to help fill out their breasts I filled my mouth with the Lord’s dust And prayed for small pecs And one day I woke with melons Weighing heavy on my chest And wondered How could I have swallowed all that Earth in my sleep And isn’t that what it meant To be woman To be filled with dirt And still blossom To feed on earth and call it this body And how this body is earth too And that I did not want to be either That I want to rip my chest open And pour all this Every grain of it Back where it belongs I did not ask for all of it Just some And ain’t that funny How this body is at the mercy of this soil That we are nothing but it And can’t I be something that grows less Like soot Something that stains So they can’t call me girl or woman But call me earth And body And just Me. Sand filled. Mistaken. Unsatisfied. Boy. With sand for chest.



Garoto de areia


Quando nós éramos mais jovens

Diziam para todas as garotas da rua

que comer areia ajuda a aumentar seus seios

Eu enchi minha boca com a poeira do Senhor

E rezei por um peitoral pequeno

E um dia eu acordei com melões

Pesando muito no meu peito

E me perguntei

Como eu pude engolir toda aquela

Terra no meu sono

E não é isso que significa

Ser mulher

Ser preenchido com sujeira

E ainda florescer

Para se alimentar na terra e chamar isto de corpo

E como este corpo também é terra

E aquilo eu também não queria ser

Pois eu quero dilacerar meu peito

E despejar tudo isso

Cada grão disso

De volta para onde pertence

Eu não pedi por tudo isso

Só um pouco

E não é tão engraçado

Como este corpo está à mercê deste solo

Que não somos nada além disso

E eu não posso ser algo que cresce menos

Como fuligem

Algo que mancha

De modo que eles não possam me chamar de menina ou mulher

Mas me chamem de terra

E corpo

E simplesmente

Eu.

Preenchido com areia.

Equivocado.

Insatisfeito.

Garoto.

Com areia em vez de peito.



NOTA


(o termo “sandboy” também aparece em uma expressão idiomática: “Happy as a sandboy”, empregada para enfatizar que alguém está muito feliz com algo que aconteceu. Nessa acepção, a relação entre estar contente / se contentar aproxima um outro sentido que parece pertinente à leitura do poema)

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