"Com o céu por dentro": um poema de Mario Santiago Papasquiaro (México, 1953-1998)




Mario Santiago Papasquiaro é o nome artístico de José Alfredo Zendejas Pineda. Além de poeta, também foi fundador do Movimento Infrarrealista, em parceria com o escritor chileno Roberto Bolaño e outros artistas.

A poesia de Papasquiaro possui consideráveis marcas das vanguardas latino-americanas, do anti-intelectualismo centrado na oposição a Octavio Paz, além do dadaísmo, do beatnik e da psicodelia de uma poética muitas vezes lisérgica. A figura de Papasquiaro, muito contestadora - mas também ora muito reservada, ora muito violenta - também foi a base para que Bolaño construísse o personagem Ulises Lima, em Os detetives selvagens (1998). Nessa obra, o movimento Infrarrealista é chamado de Real-Visceralismo.

Papasquiaro tinha o curioso hábito, quase performático, de fazer longas caminhadas pela cidade, de modo errante. Isso incluía a prática, movida por algum tipo de pulsão, de tentar atravessar as avenidas entre os carros em movimento, fato que ocasionou não só um atropelamento na década de 1980, como a morte do poeta, em janeiro de 1998.

Papasquiaro teve apenas duas obras publicadas em vida: Beso Eterno (1995) e Aullido de Cisne (1996), do qual extraímos e traduzimos o poema “Con el cielo por dentro”. Participou também de revistas literárias e antologias, algumas delas, aliás, organizadas por Roberto Bolaño.

No Brasil, há uma publicação que reúne alguns poemas de Papasquiaro: Respiração do labirinto (2009), editada pela Dulcinéia Catadora. A maior parte de sua produção – publicada e inédita – está compilada em Jeta de Santo: Antología Poética 1974-1997 (2008), lançada pelo Fondo de Cultura Económica.

Confira a seguir o poema "Com o céu por dentro", em tradução de Jorge Miranda.



COM O CÉU POR DENTRO

Mario Santiago Papasquiaro

Tradução: Jorge Miranda

Não é um sonho

& no entanto / a luz deste verso

me intimida a nomeá-lo assim:

Caminho

/ como sempre /

Na orla do mar

::entre as dunas::

Explorados o tórax / as veias

& o líquido encefalorraquidiano do deserto

Álcool puro

Alto espírito de cepo diamantino

Esfrego os olhos & me coço 1 coxa

Meus instrumentos de comunicação

Minhas pontes elétricas com esta contundente realidade

que me escava

Sua ondulação densa acaricia & sobressalta

O forno de seu olho burila em minha consciência

visões que transbordam o pestanejar exato do meu ser

Aí vai o golpe

Toda experiência em seu silêncio avisa

Cresce em idade a adrenalina

O corpo todo se eteriza

Não há distância que não aperte meu tenaz

Com o céu por dentro

Mergulho de ponta em & através deste batimento

Gemido animal com que me lambo

Montado em meu próprio couro ((que destila espuma))

Caronte por hoje navega longe

/ Com todos seus salvos-condutos & seu motor de popa /

Para chegar aqui

Teria que derreter o sol

CON EL CIELO POR DENTRO

No es 1 sueño

& sin embargo / la luz de este verso

me conmina a nombrarlo así:

Camino

/ como siempre /

A la orilla del mar

::entre las dunas::

Explorados el tórax / las venas

& el líquido encefalorraquídeo del desierto

Alcohol puro

Alto espíritu de cepa diamantina

Me froto los ojos & me rasco 1 muslo

Mis instrumentos de comunión

Mis puentes eléctricos con esta contundente realidad

que me trasmina

Su oleaje denso acaricia & sobresalta

El horno de su ojo burila en mi conciencia

visiones que desbordan el parpadeo exacto de mi ser

Ahí va el golpe

Toda experiencia en su silencio avisa

Crece en edad la adrenalina

El cuerpo todo se eteriza

No hay distancia que no exprima mi tenaza

Con el cielo por dentro

Me sumerjo de filo en & a través de este latido

Vagido animal con que me lamo

Montado en mi proprio pellejo ((que destila espuma))

Caronte por hoy navega lejos

/ Con todos sus salvoconductos & su motor de borda /

Para llegar aquí

Tendría que derretir al sol.


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