Um poema de Peter Poulsen traduzido por José Paulo Paes



Peter Poulsen (Dinamarca, 1940) é poeta, escritor, tradutor, ensaísta e músico. Traduziu para o dinamarquês Charles Baudelaire, Fernando Pessoa, Mário de Andrade e a obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (Djævelen på vejen. Copenhagen: Gyldendal, 1997).


Aliás, Peter Poulsen é uma das pontes nos diálogos literários entre o Brasil e a Dinamarca – país cuja poesia ainda circula muito restritamente por aqui. Esse contato se iniciou em 1993, no Festival de Poesia de Copenhague, no qual o poeta e tradutor brasileiro José Paulo Paes foi um dos convidados participantes. Naquela ocasião, Poulsen já apresentava trabalhos sobre a pesquisa e a tradução de poesia brasileira – fato que despertou a atenção de José Paulo Paes. Desse encontro, e com o apoio do professor Karl Erik Schøllhammer, surgiu o interesse complementar de Paes em conhecer e traduzir a poesia dinamarquesa para o português – empreitada que resultou na publicação da obra Quinze poetas dinamarqueses, publicada pela editora Letras Contemporâneas em 1997. Assim, essa publicação se junta à Panorama da literatura dinamarquesa, obra organizada por F.J Billeskov Jansen e R.Wagner Hansen, com tradução de Per Johns e publicada em 1964 em uma edição bilíngue pela editora Nórdica, como obra de referência sobre a poesia e os poetas da Dinamarca.


Ironicamente paródico e alusivo – nas palavras de José Paulo Paes – “Hvis jeg var Hamlet” / ”Se eu fosse Hamlet” é o poema de Peter Poulsen que apresentamos aqui. O poema está presente na mencionada edição de Quinze poetas dinamarqueses.



Hvis jeg var Hamlet



Hvis jeg var Hamlet,

ville jeg købe blomster til Ophelia, engelsk vingummi,

høretelefnoer,

tandstikker, champagne –

jeg ville invitere hende på rejse

til Firenze eller Rom.


Hvis jeg var Hamlet,

ville jeg forære hende et bur fuldt af bippende zebrafinker,

et par hvide kunstløberskøjter,

et partoutkort til Sverigesbådene.


Hvis jeg var Hamlet,

ville jet koncetrere mig om mit kærlighedsliv

i stedet for at ruge over det familiære;

jeg ville udstykke Kronborg

i ejerlejligheder,

flytte ind i et hus i Fiolgade

– måske jeg ville købe vandseng –


Hvis jeg var Hamlet,

ville jeg glemme alle dystre spekulationer

og være noget mere, end jeg er,

i stedet for bare at tænke på det

og holde lange foredrag om det.


Jeg ville ikke blande mig i min mors sexualliv,

hvis jeg var Hamlet.

Jeg ville se i øjnene, at den gamle er død,

ikke vade rundt i sorte nætter ofter genfærd,

som ikke har andet end hævn på hjerte.


Hvis jeg var Hamlet,

ville jeg lade Polonius stå bag gardinet,

så længe han overhovedet gad:

herregud, en senil olding –

jeg ville have nægtet at rejse nogetsteds hen

med to så latterlige typer som Gyldenspjæt og Rosenkål

eller hvad det nu er, de hedder –


Hvis jeg var Hamlet,

ville jeg gå i byen med Horatio,

drikke fadøl med Frank Jæger,

rafle med søfolk i havneknejperne,

falde i med svenske damer,

lade mig tatovere på armen:

Ophelia, I Love You,

skulle der stå

under et brændende hjerte –


Hvis jeg var Hamlet.


Peter Poulsen. Digte 1966-91 (Vindrose, 1993).



SE EU FOSSE HAMLET

Tradução: José Paulo Paes



Se eu fosse Hamlet

comprava flores para Ofélia, gomas de mascar inglesa,

transístor com fones de ouvido,

champanhe, palitos –

e a convidava para viajar

a Florença ou Roma.


Se eu fosse Hamlet,

dava de presente a ela uma gaiola cheia de pipilantes tentilhões

um par de patins de estrela do gelo

uma permanente para os aerobarcos suecos.


Se eu fosse Hamlet,

me concentrava na minha vida amorosa

em vez de ficar a remoê-la por aí;

loteava Kronborg

em apartamentos de condomínio,

e ia morar numa casa em Fiolgade

– talvez comprasse até um colchão de água –


Se eu fosse Hamlet,

mandava às favas todas as especulações sombrias

e seria mais do que sou agora,

em vez de ficar só pensando a respeito

e fazendo longas preleções sobre.


Não me intrometia mais na vida sexual de mamãe,

se eu fosse Hamlet.

Admitiria logo que o velho está morto

e não ia mais perambular pelas noites escuras atrás de um fantasma

que no coração só tem vingança.


Se eu fosse Hamlet,

deixava Polônio ficar atrás das cortinas

tanto quanto lhe desse na telha:

afinal de contas, é só um velho gagá –

e me recusava a andar, fosse onde fosse,

com tipos tão ridículos quanto Gildensfúncio e Rosentonto

ou como quer que se chamem –


Se eu fosse Hamlet,

ia farrear com Horácio

beber chope com Frank Jaeger,

jogar dados com marujos nalgum boteco do ponto,

andar com donas suecas,

mandar tatuar no braço:

Ophelia, I Love You,

logo abaixo de um

coração em chamas –


isso se eu fosse Hamlet.



Quinze poetas dinamarqueses. Tradução, introdução e notas de José Paulo Paes. Coleção Poesia Traduzida. Volume II. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1997.

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