Tradução, poética do improvável

Por Rogério Bettoni






O primeiro texto que me lembro de ter traduzido na vida se chamava “Os fatos sobre a Aids”, um informativo de poucas linhas impresso no encarte do disco Like a Prayer, da Madonna, lançado em 1989. Recentemente revirei a casa de minha mãe tentando achar o caderno que eu usava para copiar letras de música enquanto aprendia inglês, sabendo que em alguma página, lá pela metade, encontraria a tradução. Nada feito – o tempo levou embora minha relíquia. Eu estava com uns doze anos e tinha ouvido há pouco a palavra “aids” numa aula de ciências – o suficiente para querer saber o que diziam aquelas linhas no disco da popstar.


Fiz muitas traduções tortas de letras de música no início da adolescência, todas usando um dicionário bilíngue Collins Cobuild e catando palavra por palavra como quem transpusesse e misturasse apenas os sentidos listados no dicionário. No caso do informativo madonístico, eu me lembro bem de ter anotado quatro coisas duvidosas para conversar com a teacher da sétima série, e indo agora ao encarte do disco, vieram-me como um poema decorado: “doença da igual oportunidade” (Aids is an equal opportunity disease), “ser nascido para uma mãe infectada” (You can get Aids by being born to an infected mother), “condom”, que não tinha no meu pequeno Collins, e “Aids é nenhuma festa” (Aids is no party).


Não que eu não entendesse o sentido – eu até entendia. Só não conseguia redigir frases que soassem bem em português, e achava que tentar “melhorar” o que havia escrito seria invenção e crime contra o que dizia minha fonte. Na minha mente de doze anos de idade, se Madonna quisesse dizer que você pode nascer com Aids se sua mãe estiver infectada, ela teria dito, literalmente, “You can be born with Aids if your mother is infected”.


Naquela época, no entanto, eu já lia livros sabendo serem traduções e não via neles esse tipo de frase truncada, que de algum modo me soava estranha na minha escrita. Por quê? Buscando entender isso é que me tornei tradutor.


1. Tradução é quase a mesma coisa.

Lembrar desse episódio é interessante porque não é incomum as pessoas acharem que tradução se faz “palavra por palavra”. Ainda hoje ouvimos isso, décadas depois das colaborações de nosso primeiro teórico da tradução, Paulo Rónai. Mas não é por mal. Quem nunca tentou traduzir um texto costuma achar que bastam a fórmula dos dois dicionários, um ao lado do outro, e “saber falar inglês” – ou que basta um clique, em época de Google Translate.


Se é comum ouvir quem nunca pintou um quadro dizer que faria melhor do que os triângulos de Kandinski ou os pingos de Pollock, por que não entenderíamos quem escreve razoavelmente bem nos perguntar “e aí, como eu faço para mexer com esse troço de tradução”? Traduzir é ofício, profissão, arte (por que não?) – e me lembrei de um dia ouvir Lia Wyler dizer que o tradutor, como qualquer outro profissional liberal, só tem sua atividade bem compreendida pelos pares, e por isso uma crítica da tradução só seria possível com conhecimento de causa – contextual e principalmente cultural.


Talvez essa seja a primeira lição que a gente aprende quando começa a traduzir: que tradução é “quase a mesma coisa”, princípio que dá título a um livro de Umberto Eco sobre o tema. E qualquer livro que caia nas mãos de um tradutor iniciante será um desafio de redescoberta da linguagem e de suas possibilidades, seja um livro de autoajuda, um romance cor-de-rosa ou um texto de filosofia. Não por acaso recrio aqui alguns princípios de dois livros distintos de Wittgenstein – o primeiro livro que traduzi foi sobre a obra dele.

1.1 A tradução é a totalidade ou não dos fatos e do que ocorre, não das palavras.

Eu não diria que ter alguma formação na área em que o tradutor atua seja obrigatório, mas ajuda bastante. Ter familiaridade com os termos, com o assunto, com as referências e com o autor representa muitos movimentos feitos no jogo – e a tradução é um pouco a totalidade disso tudo, a junção dos fatos e do que ocorre no texto e no contexto cultural de produção do original, e também dos fatos da tradução e do que nela ocorre, influenciada também pelo contexto de quem se dedica a ela. A tradução é todo o texto do autor em outras palavras que dizem essa quase-a-mesma-coisa, não por isso inferior ou menos original que o original. A gente se esforça, acredite, para não dizer mais e não dizer menos.

[54]. Cada jogo de tradução é jogado de acordo com uma regra determinada.

Por isso costumo dizer que existem tantas definições de tradução quanto existem tradutores, porque tem um pouquinho da gente no texto, submetido a dois conjuntos de regras: as ditadas pelo original e as que criamos para lidar com ele. Quando traduzi Jane Eyre, por exemplo, quase ouvia a Charlotte Brontë gritando para que eu mantivesse seus travessões e frases subordinadas, brincando com vírgulas, pontos e vírgulas e dois pontos. Do lado de cá, uma dessas regrinhas que estabeleci foi escolher (no texto narrativo, não nos diálogos) sempre o verbo “haver” como auxiliar em vez de “ter”, quando fossem intercambiáveis. Procurei também usar algumas palavras algo arcaicas e extrair dos adjetivos alguns sentidos menos óbvios, provocando ao ouvido do leitor atual algum tipo de estranhamento que o leitor contemporâneo também sente ao ler um romance escrito há quase dois séculos.


Enquanto traduzi Jaqueta branca, ouvi Herman Melville dizer em várias entrelinhas que me afogaria na primeira praia se eu explicitasse suas sutilezas, e que as palavras repetidas deviam ficar ali mesmo onde estavam. A gente escuta a voz do autor – acordado, distraído, em sonho e pesadelo –, e quando estamos surdos para essa voz ou a escutamos sem entender, melhor descobrir o que há de errado.

[7]. Chamarei de “jogo de tradução” um palimpsesto formado pela linguagem e pelas atividades com as quais ela vem entrelaçada.

O tabuleiro em que movimentamos as peças desse jogo eu digo que é palimpsesto – por vezes a gente até escuta o barulho da página sendo raspada para escrever outra coisa por cima. E muitas vezes entendemos os fatos – ou o que ocorre – dessa quase-mesma-coisa lá fora, bem distante do texto. Uma vez, traduzindo um Agatha Christie, me deparei com uma cena peculiar e quase clichê: o mordomo sobe as escadas para evitar ser questionado pelo investigador, que lhe chama a atenção fazendo um comentário duvidoso: em inglês, a frase dava a ideia de ironia e preconceito em relação à homossexualidade do mordomo, mas também de naturalidade, como algo natural de se dizer. Que os clichês literários nos inculcam o pré-conceito de que todo mordomo é gay é um fato sabido – um motivo a mais para dificultar minha tradução, pois no fundo eu desconfiava de que a ambiguidade estava na minha forma de ver o texto, e na minha descrença de que Agatha Christie “perpetraria” um comentário daqueles. Semanas depois, prestes a entregar a tradução, encontrei uma tese de doutorado sobre personagens gays em romances policiais ingleses e resolvi meu dilema.


Enquanto em literatura passamos horas pesquisando aquela planta rasteira e retorcida que só existe num pedaço da Nova Zelândia, e concluímos que o melhor é traduzi-la por “cipó”, em filosofia não é diferente. Não é nada raro traduzirmos autores que dialogam com outros filósofos, reinterpretando seus conceitos e citando obras escritas em outras línguas. Aí complica, porque se o autor cita de passagem um conceito alemão já entendido pelo leitor brasileiro como “x” e a gente traduz por “y”, lá estará o termo solto sem ser apreendido em português como poderia. Leitores de psicanálise, por exemplo, já acostumados a apreender o conceito freudiano de Trieb como “pulsão” (vindo pelo francês pulsion), começaram a tropeçar na leitura de textos que traziam “instinto” (por influência anglo-saxã de instinct) e, mais recentemente, “impulso”. Concordo que é preciso inovar em relação ao consagrado para corrigir erros, equívocos ou imprecisões; quando esse não é o caso, para mim fala mais alto a fluência, entre outras coisas. Nas minhas regras de jogo, por enquanto ainda prefiro a “pulsão de morte”.

[445]. Na tradução, tocam-se expectativa e realização.

Há quem vá me dizer preciosista, detalhista, quiçá perfeccionista – antecipo a resposta dizendo que expectativa e realização é uma linha tanto tênue quanto tesa. Traduzir é tomar decisões. Quando comecei a trabalhar com o filósofo esloveno Slavoj Žižek (que escreve em inglês, sua língua não-materna), minha primeira dificuldade foi encontrar um equilíbrio entre os múltiplos sentidos de seus conceitos e categorias ditados muitas vezes por filósofos franceses ou alemães. Žižek é múltiplo e tem a capacidade de misturar cultura pop norte-americana, música clássica, cinema russo, Hegel e Lacan num mesmo raciocínio.


Mas falemos do que ocorre com um termo muito comum em seus textos – e que nas traduções que fiz dele até agora, desdobra-se em dois. Em linhas gerais, na filosofia hegeliana, o termo alemão “wirklich” traduz-se melhor por “efetivo” em português; em Deleuze e Derrida, o termo francês “actuel” (em oposição a “virtuel”), costuma ser traduzido por “atual” em português (em oposição a “virtual”). Žižek é influenciado pelos três filósofos e se apropria dos dois conceitos – em inglês, porém, “wircklich” e “actuel” traduzem-se ambos por “actual” nos textos do esloveno. Saber disso é importantíssimo na tradução – pensem no conflito conceitual e na estranheza de colocar “atual” nas linhas de Hegel e “efetivo” numa citação de Deleuze. Isso não quer dizer, no entanto, que o sentido de “actual”, para Žižek, seja o mesmo nos dois contextos – olha que beleza é a língua e suas mudanças de sentido! Olha como essas regras também são dinâmicas! Há quatro anos eu traduzia “Event” (do francês évenement) por “evento”; hoje, depois de ler Badiou forçadamente e Deleuze por necessidade žižekística, uso “acontecimento”.

1.11 Pois a totalidade ou não dos fatos e do que ocorre determina o que é e o que não é a quase-mesma-coisa. E o que o leitor tem a ver com isso? Nada e tudo. Nada porque essas coisas não lhe interessam – interessa-lhe ler um texto claro e fluente, de modo que não se lembre da figura do tradutor enquanto lê. Tudo porque é em nome dele que se empreende a pesquisa, o conhecimento contextual, a tradução não de palavras, mas de culturas – tarefa do tradutor. O jogo agora é o da leitura, é entre leitor e texto, leitor e autor – o máximo que o tradutor pode (e deve) fazer é abrir um tabuleiro que não o seu, distribuir novas peças ou dar novas cartas, e deixar que o leitor se vire ali no meio com suas próprias regras.


A tradução é tudo isso, poética do improvável que se torna possível desde que o mundo é mundo. Às vezes gosto de brincar com imagens de povos primitivos tentando se entender nos primórdios da humanidade. Gosto de pensar na imagem de Babel, de todas aquelas línguas misturadas em busca de uma unidade. Gosto de lembrar de uma das obras-primas do cinema português, Um filme falado, de Manoel de Oliveira, em que, num cruzeiro, John Malkovich, Catherine Deneuve, Stefania Sandrelli e Irene Papas se entendem mutuamente falando em suas próprias línguas, e têm essa estranha unidade entre inglês, francês, italiano e grego perturbada com a chegada da portuguesa Leonor Silveira e sua filhinha na roda de conversa.


A tradução é essa dinâmica, com regras mutáveis e imprevisíveis que se renovam a cada texto e com cada tradutor. Daí o fracasso da linguística em encontrar fórmulas universais para a tradução; daí o fracasso da tradução automática baseada em algoritmos; daí a beleza dos estudos da tradução aliados à psicanálise e aos estudos literários, que enchem nossa prática de poesia, arte e sentido; daí o sucesso dos estudos da tradução aliados à pesquisa cognitiva e à linguística de corpus, que enchem nossa prática de técnicas, estratégias e dados concretos. Sobre aquilo que não se pode traduzir, deve-se traduzir.


Espero que da próxima vez que você abrir um livro traduzido, esqueça que o tradutor está ali e jogue com suas próprias regras.

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Os princípios de Wittgenstein citados no texto são:


1. O mundo é tudo que é o caso.

1.1 O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas.

1.11 O mundo é determinado pelos fatos, e por serem todos os fatos.

7. Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.

(Tractatus Logico-Philosophicus. Tradução de Luiz Henrique Lopes dos Santos. 2ª ed. São Paulo: Edusp, 1994.)

[7] Chamarei de “jogo de linguagem” também a totalidade formada pela linguagem e pelas atividades com as quais ela vem entrelaçada.

[54] Pensemos em que casos dizemos que um jogo é jogado de acordo com uma regra determinada.

[445] Na linguagem tocam-se expectativa e realização.

(Investigações filosóficas. Tradução de Marcos G. Montagnoli. Petrópolis: Vozes, 1994.)


Este texto foi publicado originalmente no extinto blog do Instituto Moreira Salles em 10/11/2016.


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